sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Um livro.



"Minha amiga está-se indo embora aos poucos.

Ela é como um livro maravilhoso
que leio todos os dias,
e já decorei capítulos por inteiro.

Mas, o livro
está se desfazendo
pelo tempo!

Percebi outro dia que todo o capítulo 3
have se dissipado como algo que pode ser dissipado, e pouco depois em minhas
mãos
toda uma página do capítulo 5,
exatamente a página 96, desapareceu
bem no meio de sua releitura assumida com profundo agrado.

Ontem foram as letras da brochura
com o seu nome, escritas a ouro -
sumiram!! Sabem o que é isto? sumiram como mágica
e só distinguo o livro dos outros da minha estante.
por não ter nome em sua lombada.
O único livro perdido se destaca como um presente de todos os outros
um tanto ausentes para mim.

Por sorte decorei cada página e cada letra
como momentos separados
e interligados: gosto demais da página 103
para sequer ousar esquecê-la.
Também do segundo parágrafo
da página 206, onde ela se perdeu nos arredores da marginal
e encontrou um camarada meio louco - um cabeludo maltrapilho.
que a ajudou a se encontrar.

Há também um erro de concordância
que rendeu muito pano para manga.
Ainda acho que estou certo -
mas ela usa-os como bandeira.
(Sou um cavalheiro -
pelo menos me comporto como cavalheiro
e deixo passar.)

Minha amiga muda a cada dia
sua maneira de se expressar
mas a saudade não me alcançará, pois já decidi:

Colocarei num quadro
o prefácio que narra como a conheci

e guardarei tudo

bem dentro de mim."

(Flávio Alberoni - alberoni@uol.com.br)

Di, qual seria o meu prefácio?!


.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Só pelo tema



Sem nenhuma correlação pessoal com estas figurinhas, mas são selvagens e boas demais para alguns analistas.


Impossível



Tem algumas palavras que cismam em ficar na cabeça, grudadas. E acabo carregando algumas, como uma bagagem. Só que diferentemente daquelas que uso, essas de tão boas acabam ficando guardadas, como uma tentativa de preservação de mim.

E quando as falo é por um uso especial, sem que as pessoas notem. Só que dá um certo pudor semelhante a quando mostro uma nova descoberta musical: me é tão cara a descoberta, que tento desistir depois - afinal, parte daquilo é como penso e o que acabo fazendo é a construção de um abismo com o outro... ao contrário do que queria.


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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Uma, entre outras.



Estava com um certo furor que, de tão identificada com a frase da Clarice:
"Eis-me aqui dura, silenciosa e heróica", não sabia nomear o motivo do heróica... Apesar de ainda me sentir assim, além dos outros dois termos.
Fiquei com alguns dias com alguma certeza do que era isso, mas só hoje percebi que era devido a tentar encarar de frente dois aspectos que todo neurótico passa: a culpa e a angústia. Não, não quero mais terceiras pernas emocionais nem pessoas que possam me apoiar. E sei que vou precisar, e bastante. E tentar dá insegurança, mas viverei minha vida inteira com um enquadre de óculos que não são meus? Não quero ser nem profunda, nem rasa demais.
Sou é pulsante, visceral com um rótulo um tanto imponente, sem querer ser. Uma aparente calmaria.
Escrever esses textos é me odiar depois. Mas isso não podia deixar passar.

Vi e não lembro do autor: A cada um a coragem de tomar seu próprio risco.

sábado, 15 de agosto de 2009

Viagens no metrô.



Depois de muitos acasos no metrô - e poderia fazer uma lista: desde ficar fechada no vagão; parada no meio do túnel sem luz; conversar com milhares de idosos; quase brigar com uma menina que encarava; ver as pessoas se estapearem no anhangabaú para entrar; presenciar um rugby de uma garota ao tentar entrar no trem (e
olha que ela me ensinou... depois de 8 trens, era o único e selvagem meio de entrar) - nesse tempo nunca tinha conhecido o DON JUAN!
Tudo bem que era meio capenga, fumado, 41 anos. Mas lá vem a abordagem: sentada, lendo e o cara me incomoda com o joelho na minha frente. Com aquele olhar que dou, para.
Não contente, senta-se num banco perpendicular ao meu e depois de segundos me cutuca e pergunta: você é advogada?
- não.
- geógrafa?
- não.
- o que você lê? (estendo o texto)
- isso é sobre alteração? (título: A altercação.)
- não, psicanálise e filosofia.
- Ahn.
- Você é psicóloga?
- sim.
- Tem 18 anos? (aí é de f...)
- não.
- A pergunta que faço (a mais idiota do mundo): e você, quem é?
- Eu sou o DON JUAN, aquele que engravida as menininhas e não casa. Aposto que tem uma fila de caras na sua casa. Você distribui senha?
- Não e nem quero ficar grávida de você.
(...) Chega no Jabaquara, ponto final, e digo: ow, você não vai descer não?
- tava esperando para você não achar que ia te seguir.
- não, é o ponto final. Saímos e digo tchau.
- ahn, você é daquelas que saem para jantar no Fasano ou no Ritz e vão embora à meia-noite para dar remédio para a mãe que já morreu...
- não, não tenho essas aspirações, e falo com você pessoa a pessoa.
Resmunga muito, sai correndo pelo corredor lotado (era às 19h) e SOME.
Fico ali, rindo sozinha - olhando para os lados à procura de alguém que tenha presenciado algo.






Quadro da casa de um querido amigo.

Eis-me aqui.




Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.

Clarice Lispector - A descoberta do mundo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

INVERNÁCULO


Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Paulo Leminski - O ex-estranho, fantástico.


é, leio outras coisas que não psicanálise e franceses.

Pequenas verdades.


nem todo conselho é bom

nem todo automóvel táxi
nem todo sopro é de sax
nem todo filet mignon
nem toda arte é um dom
nem todo voto é secreto
nem todo amigo é discreto
nem todo batuque é samba
nem toda casa é de bamba
nem todo malandro esperto.

Ney Matogrosso E Pedro Luis E A Parede - Vagabundo.

domingo, 2 de agosto de 2009

Não é aqui um confessionário. Do meu inferno deixo para mim.
Aqui eu deixo as marcas, estas sim, podem deixar rastros.

eis com o que me defronto...

Um cão,
porque vive,
É agudo.
O que vive
Não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
Porque vive,
Choca com o que vive.
Viver
É ir entre o que vive.

O que vive
Incomoda de vida
O silêncio, o sono, o corpo
Que sonhou cortar-se
Roupas de nuvem.
O que vive choca,
Tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
Como um cão, um homem,
Como esse rio.
Como todo o real
É espesso.

(João Cabral de Melo Neto)