Um cão,
porque vive,
É agudo.
O que vive
Não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
Porque vive,
Choca com o que vive.
Viver
É ir entre o que vive.
O que vive
Incomoda de vida
O silêncio, o sono, o corpo
Que sonhou cortar-se
Roupas de nuvem.
O que vive choca,
Tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
Como um cão, um homem,
Como esse rio.
Como todo o real
É espesso.
(João Cabral de Melo Neto)
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